sexta-feira, 21 de março de 2014

Homilia do 3o. Domingo da Quaresma – Beber água do poço

A água é um elemento vital para o ser humano, assim como a comida. Quando Jesus utiliza estas imagens, comunica-nos algo muito além do visível, do palpável. O mais importante não é o pão de trigo ou a água do poço, mas o alimento e a bebida da vida eterna. A água é o sentido da vida, é a graça divina, o dom da salvação, o Espírito...
O Senhor nos deseja dar da água viva, mas nem sempre estamos abertos para receber este dom. Somos resistentes. No AT, o povo quer voltar para trás, duvida do êxodo, deixa morrer a esperança no Deus que salva, pois percebe que o deserto é árido. A consequência é a murmuração. Hoje também murmuramos diante das circunstâncias, deixamos a fé e a esperança morrer, com facilidade. Deus, por sua vez, convida-nos a arriscar. A samaritana também manifesta sua descrença: “é você que me dará de beber?” Deus nos concede a água viva como um dom genuíno. Mesmo diante de nossas resistências e murmurações, Ele quer nos saciar. Mas fica o alerta: sem o consentimento humano, a graça não pode acontecer.
O Evangelho deste domingo revela muitas riquezas. Apresenta um encontro entre Jesus e uma mulher samaritana. Primeiramente, observamos que se trata de um encontro que acontece no cotidiano da vida. Estavam à beira de um poço para beber água. Jesus se manifesta no comum da vida. Para encontrar o Senhor, não podemos ficar preso às regras, ao lugar correto para o culto, aos preconceitos em relação à mulher ou ao estrangeiro. É preciso assumir o verdadeiro culto “em espírito e verdade”, superando os ritualismos vazios.
A samaritana fez um conhecimento gradual de Jesus: considerado inicialmente como um desconhecido, passa a judeu inimigo, depois um homem desconcertante, mais tarde um profeta e, por fim, o Messias. Somos convidados a avançar no conhecimento do Senhor, acolhendo o dom da água viva. Não o conhecemos de uma vez só, mas ao longo de toda a nossa existência, por um processo de conversão constante.
O encontro transforma a vida da pessoa. A samaritana não seria a mesma depois do diálogo com Jesus. Quando encontramos o Senhor, a nossa vida ganha novo sentido, passa a ser uma nova vida, somos “nova criatura”. O encontro afetivo proporciona uma nova visão do mundo, da realidade... O encontro também leva à missão, por isso, a samaritana se vê impelida a ir ao encontro dos demais para proclamar que ela viu o Messias. Quem encontra o Senhor não o guarda para si, não se satisfaz com algumas experiências de satisfação espiritual, não se contenta com a prática de ritos. O encontro necessariamente nos leva à adesão do seu Reino, da missão. Quem encontrou o Senhor, deseja, sem proselitismos, fazer com que outros também o encontrem.
Junto com os catecúmenos que se preparam para os sacramentos da iniciação, recebemos o convite para escrutinar nosso coração, ou seja, olhar para dentro de si mesmo à luz do projeto divino, percebendo se estamos vivendo de acordo com a proposta do Evangelho: acolhemos a água viva e deixamos de lado as resistências? O nosso encontro com o Cristo é profundo e verdadeiro? Somos conduzidos à missão?
Quem tiver sede, venha a mim e beba. Do seu interior brotará fontes de água viva!

Pe. Roberto Nentwig

terça-feira, 11 de março de 2014

A Transfiguração


Todas as pessoas são transeuntes e passageiras pela terra. A vida passa, mas a sua dinâmica deve ser de construir uma sociedade de justiça e de paz. A injustiça e a guerra infalivelmente matam, eliminando de sua história as bênçãos divinas. Não é este o projeto do Criador porque a humanidade passa a se esquivar da real responsabilidade diante das propostas de Deus.

Não podemos entender a vida como um “ninho” de proteção e de bem-estar, sem compromisso social e de responsabilidade com o outro. É por isto que a palavra “transfiguração”, como está no cenário bíblico, implica mudança de atitudes para fazer acontecer o bem e a harmonia desejados por todos, isto é, uma vida com dignidade e respeito, de valor humano e divino.

Em tempo de quaresma, as pessoas são convidadas a ouvir atentamente o som da fraternidade, da conversão e da transformação de vida. E sabemos que não é saudável investir na realização do mal e na violência, sendo desonesto uns com os outros. Esta é uma política de destruição, trazendo consequências drásticas para a vida pessoal e social.

Interrogando-nos, como é o nosso estilo de vida, de cidadãos, de políticos, de lideranças etc.? Temos o senso e a prática da liberdade no seu verdadeiro teor, rompendo com determinadas ações egoístas, apegos exagerados em valores que não são importantes? Podemos estar construindo uma vida contra nós mesmos!

Um mundo transfigurado deve estar apoiado na certeza da não exploração e voltado para a mobilização e construção de uma sociedade totalmente nova. Isto exige perseverança das lideranças bem intencionadas, não se deixando sucumbir diante das dificuldades e nem podem ficar tímidas no cumprimento de suas verdadeiras tarefas.

A pessoa transfigurada consegue irradiar confiança e passa a agir de modo permanente e corajoso para construir a sociedade almejada. O transcurso disto se faz na simplicidade, na confiança e não no espírito de derrota. Isto significa dizer que a vida triunfa sobre a morte, porque ela é um permanente caminhar sem egoísmo e sem acomodação.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Arcebispo de Uberaba.



quinta-feira, 6 de março de 2014

Homilia do 1º. Domingo da Quaresma – Ano A

“O Senhor formou o homem do pó da terra...” (Gn 2,7). Esta afirmação nos remete a uma das exortações prescritas para a distribuição das cinzas: “Lembra-te que é pó, e ao pó voltarás”. De fato, somos pós, terra, fragilidade. O ser humano vive do sopro divino, mas não perde a sua fragilidade, e Deus sabe de que barro somos feitos. A Quaresma é uma oportunidade para nos lembrarmos de nossa condição, deixando de lado o orgulho autossuficiente, faz-nos conscientes de que a tentação pode nos fazer sucumbir.

O deserto é um lugar teológico de profundo significado. Não se trata de um espaço geográfico, mas de uma experiência espiritual de solidão e silêncio. Somente quando nos afastamos dos ruídos, da agenda atribulada, das superficialidades da vida e até mesmo das pessoas, por algum tempo, poderemos olhar para o profundo de nosso coração. Lá não encontraremos apenas bondade, mas muitas necessidades não satisfeitas, ambições desordenadas, seguranças falsas. É importante deixar-se conduzir ao deserto para perceber quais são as vozes que gritam dentro de nós. Um pouco da ausência das ilusões desta vida nos ajudam a perceber o quanto elas nos fazem falta. A experiência do deserto descrita no Evangelho é uma luta contra as tentações. É necessário que o demônio se mostre, que o mal se faça emergir para que saibamos contra o que lutamos. 

Mesmo Jesus, o Filho de Deus, foi tentado a sucumbir, foi tentado a deixar o seu projeto em prol do Reino e da salvação para abraçar seguranças do prazer, do ter, do poder. Tais tentações acompanharam Jesus durante toda a sua vida, e acompanham também a nossa vida. Todos nós desejamos sempre substituir Deus por coisas, situações e pessoas. Queremos ser tão donos e controladores de nossas vidas, de modo a não admitirmos que algo possa atrapalhar cada passo imaginado em busca da autossatisfação. Mas a vida não é assim... A vida é um mistério que de desvela, e somente pode ser compreendido à luz de Deus que não nos deixa ao largo do caminho...

As tentações são bem localizadas na cena do Evangelho: o prazer, o ter e o poder:

a) “Se és filho de Deus, manda que estas pedras se mudem em pão”. É a tentação de buscar ser saciado a todo custo. Hoje temos um cardápio de possibilidades para nos saciar: restaurantes, lazeres, compras, programas televisivos. Podem facilmente nos colocar na condição da futilidade, de uma vida sem projeto, inundada no prazer momentâneo das coisas que nos ocupam o tempo, enquanto não estamos trabalhando. É importante ter o necessário, o pão de cada dia, mas não o excesso dos prazeres. O pior é pensar que os prazeres são essenciais para que a vida possa seguir o seu curso. O extremo é deixar de lado o que nos preenche verdadeiramente: o pão da Palavra e o Pão da Eucaristia. Nada pode ocupar o lugar de Deus em nossa vida: “Não só de pão vive o homem”. 

b) “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória...” O diabo é o doador dos bens, mas pede adoração. É fácil nos curvarmos diante dos bens deste mundo, pois estamos na sociedade do consumo. A cada instante, os comerciais nos dizem que adquirir determinado produto vai nos fazer mais felizes. Mas a felicidade jamais está no possuir. O apego aos bens deste mundo são ilusões, fazem-nos desviar do sentido verdadeiro da existência, fazem-nos não confiar em Deus - o verdadeiro tesouro. Precisamos viver com liberdade diante dos bens, partilhando e despojando-nos do que atrapalha.

c) “Se és filho de Deus, atira-te daqui para baixo”. É a tentação de se usar o poder para o exibicionismo, em benefício próprio... Também queremos o prestígio, o reconhecimento, a fama... O poder é mais destrutivo do que o próprio dinheiro e acúmulo de bens. Somos tentados a fazer mal uso do poder para nos contentar em nosso desejo de ter autoridade. Queremos, também, ter o controle mágico sobre a vida, o controle total sobre o presente e o futuro. Mas a vida segue com suas surpresas. A confiança em Deus faz-nos encontrar nas surpresas, o Espírito.

Pe. Roberto Nentwig



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Homilia do 8º. Domingo do Tempo Comum – Ano A

“Não vos preocupeis com a vossa vida”. Jesus não está defendendo a preguiça, o comodismo. O que Jesus nos ensina é não se pre-ocupar, ou seja, a não se ocupar por antecipação, a não empenhar o tempo e os afetos nos bens deste mundo, esquecendo-se do que é mais fundamental. O que está em jogo é a troca de valores: a preocupação demasiada com as coisas (comer, beber, vestir) em troca dos valores do Reino.
Desejamos segurança. É claro que ninguém vive sem comida, bebida, casa, vestes... É necessário o empenho para que estes bens sejam garantidos. Mas esta não deve ser a exclusiva ocupação da nossa vida. Estes bens são concedidos pela providência de Deus, quando somos capazes de colocar o nosso coração nos bens do Reino. A nossa preocupação demasiada com as coisas, faz-nos ficar na manutenção da vida. A busca demasiada pela própria segurança nos imobiliza, diminuindo em nós a capacidade de arriscar. A confiança em Deus gera o desprendimento, e o desprendimento deixa o nosso coração livre para servir, para sair de si, para mudar o que nos cerca, em nome dos valores do Reino.

Parece comum gastarmos muito de nossa energia remoendo o passado e alimentado a ansiedade diante do futuro. O passado deve ser memória das bênçãos de Deus e oportunidade para que a misericórdia inunde o nosso coração, não o elemento fatídico que nos faz deprimir, lamentar e odiar. O passado não existe mais, portanto, pensemos no que virá. Quanto ao futuro, este também não existe, ainda está por vir. Portanto, mesmo que demande o planejamento saudável, não devemos criar demasiada ansiedade, pois tudo está nas mãos de Deus. É preciso viver o agora. O momento presente é a hora em que o Senhor está agindo, é a hora do Reino, quando Deus se manifesta. E Deus passa por nós a cada momento, havendo o risco de que seja despercebido por causa das nossas ocupações desnecessárias. É preciso colocar tudo nas mãos do Pai: “Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso (...)Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Para cada dia, bastam seus próprios problemas” (Mt 6, 32-34).

Portanto, hoje a Palavra de Deus exorta à confiança. É preciso crer que Deus está conosco, que Ele é o Senhor do tempo e da história; é preciso reafirmar em nossas consciências, que embora haja ambiguidades no curso da vida, Deus não se esquece de nós. Por vezes, achamos que Deus está ausente, que sua ação é ineficaz. Geralmente, tal sentimento nos assalta quando os problemas são intensos e nossas preces não são atendidas exatamente do modo como pedimos. Então, o ser humano inclinado a ter Deus como seu empregado, como alguém que deve fazer os seus caprichos, pensa que Deus está longe, que não se importa com a história. Foi este o sentimento do povo na 1ª. Leitura: “Disse Sião: ‘O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim’. Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49, 14-15). Deus nos ama como uma mãe, não nos esquece, sempre está conosco. Se não tira nossas dores, concede-nos forças para seguir na sua graça, no seu amor.

Quando confiamos em Deus, não precisamos nos preocupar com os julgamentos humanos. São Paulo viveu profundas perseguições. Certamente, os seus contemporâneos e até membros de suas comunidades o criticaram por suas atitudes. O apóstolo se defende, dizendo que é Deus quem o julga. Tenhamos clareza de que a confiança em Deus nos colocará sob o julgamento injusto das pessoas, e isso acarreta uma certa dor. Aguardemos o Senhor da julgar a história: “Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações” (1Cor 4,5). As relações humanas são muito baseadas nas aparências... Quais são os verdadeiros desejos e pensamentos que residem em nosso coração? São os projetos secretos de nosso coração que nos justificam ou nos condenam. É preciso fundamentar a vida na reta intenção cheia de amor, com confiança e esperança no Senhor. “Olhai os pássaros do céu... Olhai os lírios do campo...”

Pe Roberto Nentwig

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Homilia do 7º. Domingo do Tempo Comum – Ano A


“Sede perfeitos como vosso Pai dos Céus é perfeito” (Mt 5,48). Esta frase do Evangelho é incômoda, podendo até ser aplicada com um peso indevido. Sim, pois quem é perfeito nesta vida? E quantos, em busca de um ideal de perfeição, acabaram sucumbindo no meio do caminho ou ficaram paralisados diante de suas culpas demasiadas. É interessante observar que esta palavra de Jesus se dá depois de um longo discurso sobre o amor ao próximo. Isso indica que a perfeição exigida por Cristo não é uma exortação à impecabilidade do culto ou de uma construção aparente de pureza; nem tão pouco, significa uma relação vertical com Deus. A nossa busca pela perfeição é, sim, um crescimento no amor, que se concretiza por um novo modo de se relacionar com nossos irmãos. “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa res­posta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pes­soais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma ‘caridade por re­ceita’, uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (Evangelii Gaudium 180).

“Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem. Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). As palavras de Jesus devem nos incomodar, tirando-nos do comodismo, fazendo-nos dar mais do que aquilo que é justo, mais do que se pode calcular pela lógica da retribuição humana. É preciso entrar na dinâmica da gratuidade, que tem a sua força na encarnação: Deus se torna humano e ama os pecadores, não retribui com mal, mas dá a vida também pelos seus agressores. Ele faz chover sobre maus e bons, não ama apenas os santos. Jesus nos ensina a amar de modo gratuito, sem focar no limite do irmão, pois somos todos falhos, pequenos, participantes da solidariedade do pecado.

Diante dos enfrentamentos humanos, o primeiro movimento costuma ser a vingança. Parece ser justo retribuir o mal com o mal, destruir o agressor. É preciso ter consciência dos movimentos de nosso coração, com a clareza de que somos capazes de agredir, vingar, bater e até matar. A consciência de que somos também agressores ajuda-nos a crescer no amor. É preciso que se tenha clareza de que é muito fácil e espontâneo a vida narcísica, egoísta. Proclama a poetisa Cecília Meireles: “É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada. É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre”.

Diante do movimento de ódio e ressentimento, Jesus nos dá o remédio da oração. Não é possível orar por alguém sem que haja algum movimento positivo no coração. Quando oramos por alguém, amamos esta pessoa em Deus. Por isso, este é o primeiro passo para destruir a corrente de vingança e ódio. Dar a face, não significa uma atitude ingênua, mas sim a capacidade de dar uma nova chance. Todos, inclusive nós, queremos sempre uma nova oportunidade para tentar ser bom, para reconstruir o que foi destruído.

É preciso viver o amor genuíno. Viver na dinâmica do ódio e da vingança é paganismo. Assim, o Evangelho nos questiona sobre o sentido mais profundo de nossa religião. Somos realmente seguidores de Jesus? Que atitudes demonstram esta sintonia com as exigências da Palavra de Deus? Só pela fidelidade no amor é que podemos nos considerar de filhos do Pai celeste.

Pe. Roberto Nentwig

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Especialistas discutem novo Itinerário de Iniciação à vida cristã



Bispos referenciais, coordenadores regionais e representantes de grupos ligados à Comissão Episcopal de Animação Bíblico-Catequética da CNBB, se reuniram em Brasília para discutir um novo Itinerário Catequético para a Iniciação à vida cristã. Trata-se de quatro roteiros que abrangem todas as idades: as crianças, os adolescentes, os adultos batizados que precisam de um aprofundamento e os adultos que não são batizados. Realizado na sede das Pontifícias Obras Missionárias, o encontro iniciou no dia 12 e se estendeu até esta sexta-feira, 14.
Segundo o assessor do setor Catequese da CNBB e coordenador dos trabalhos, padre Décio José Walker, a reunião, além de discutir temas bíblicos tratou da preparação de um Seminário Nacional sobre a Iniciação à Vida Cristã a ser realizado nos dias 6 a 9 de novembro em São Caetano do Sul (SP), quando serão partilhadas experiências existentes na área.

Homilia do 6º. Domingo do Tempo Comum – Ano A


Diante do Evangelho deste domingo, antes de tudo, é preciso compreender o seu espírito. O decálogo de Moisés nem sempre era propositivo: “não matarás, não adulterarás, não julgarás...” A lei dizia: “não, não, não...”. Jesus já havia dado o preâmbulo do seu discurso: as bem-aventuranças. Sua homilia é propositiva e positiva, ao chamar os seguidores da Boa Nova de felizes, bem-aventurados. É preciso, portanto, entender que Jesus não está preocupado com a exterioridade da lei, mas com a interioridade. A lei é importante, pois ela é o pedagogo, estabelece os limites que se opõem a idolatria. Mas a lei por si só pode nos escravizar. São Paulo é o exemplo de religioso que percebeu que vivia uma série de preceitos, mas não era livre, pois não se humanizava na posição de fariseu rígido. O apóstolo escreveu em suas cartas que antes de conhecer o Cristo era ele um seguidor da norma; vivia deste modo para que a sua consciência ficasse em paz, esperando a recompensa obrigatória de Deus. Jesus, no Sermão da Montanha, apresenta-nos a Boa Nova como um caminho que não só nos liberta do pecado, como também da escravidão da lei. Não que devamos viver sem lei, mas sim, porque ser seguidor de Jesus implica em não olhar apenas para os preceitos, esquecendo-se do significado maior da lei. Há o risco de olharmos para o preceito, esquecendo-nos da lei fundamental do amor e da misericórdia. A Boa Nova nos leva também a olhar para a totalidade de nossa vida, para o significado de nossa existência diante da proposta divina.

Seria um erro, nesta linha, ler o texto do Evangelho deste domingo sem o espírito de Jesus. Deste modo, poderíamos nos sentir mais aprisionados pelas palavras do Novo Moisés (o Cristo) do que pelos preceitos judaicos. Não se trata de condenar aquele que está divorciado, ou vive em segunda união, ou achou um homem bonito ou uma mulher atraente na rua, ou quem jurou em uma frase impensada. Jesus deseja que olhemos com novo olhar, que tenhamos a lei do amor em nossos corações. Assim, mais do que uma vivência exterior, é preciso amar a todos, amar e perdoar quem nos agride, ter um novo modo de se relacionar com a mulher (e com o homem!), viver o casamento sem egoísmos e irresponsabilidades, falar a verdade sem artifícios... Viver no espírito as relações humanas.

Por isso, não basta confessar os pecadinhos a cada passo numa consciência obstinada pela pureza e não ter a vida toda transformada, convertida, o que implica em um coração verdadeiramente voltado a Deus. É possível viver uma religião falsa, um seguimento aparente, uma disciplina religiosa rígida, sem fé verdadeira, sem amor, sem alegria. Ser cristão não é ser escravo de proibições, fugindo do pecado pelo medo da condenação do Deus vingador. Ser cristão é ser seguidor do Cristo, movido por seu amor. É sair de si mesmo movido pela mística do encontro pessoal que coloca a vida em movimento na direção do próximo e do próprio Deus.

“Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. (...) Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15, 16-18). Em nossa vida, fazemos escolhas em várias ocasiões. Deus respeita a nossa liberdade de escolha, não nos força, nem nos condena. Por outro lado, deixa-nos a sua proposta de salvação, como orientação de vida, ou seja, previne-nos. Diante de nós, tendo a Palavra do Senhor como referência, apresenta-se o bem e o mal, e ao mesmo tempo a vida e a morte: se escolhemos o bem, escolhemos a felicidade; se escolhemos o mal, optamos pela ruína. Mas se caímos, Ele sempre estende a mão para que levantemos e nos recoloquemos no caminho.

Pe Roberto Nentiwg

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Homilia do 5º. Domingo do Tempo Comum – Ano A


Jesus utiliza uma simbologia muito compreensível. Precisamos ser sal: dar gosto, sabor... Precisamos ser luz: iluminar a vida, dissipar as trevas...
O sal dá sabor. Os termos “sabor” e “saber” derivam do mesmo termo latino, como também o termo “sabedoria”. Deste modo, podemos dizer que ser sal é adotar a sabedoria, ou seja, o saber que dá sentido ao curso do existir. Antes de ser uma missão para fora, deve ser uma tarefa individual, ou seja, o cristão deve dar gosto para a sua vida e, depois, propagar o sabor da vida ao mundo.
Jesus fala do risco do sal se tornar insosso, ou seja, do perigo de nossa existência se tornar vazia, fria e sem vitalidade. Há muitas as causas desta falta de sabor. O Papa Francisco, falando sobre os agentes pastorais, destaca algumas causas do cansaço e desmotivação pastoral (cf. Evangelii Gaudium 82). Tais causas, apontadas pelo Papa, não somente valem para a prática evangelizadora, mas para a vida de qualquer pessoa. Eis os pontos: a) sustentar projetos irrealizáveis, e não viver com alegria o que é possível: não se trata da falta de ambição com a vida, mas de ter os pés no chão; b) desejar que tudo caia pronto do Céu: tudo acontece mediante um processo, que exige luta laboriosa; c) cultivar sonhos baseados na vaidade humana: é preciso sempre avaliar as motivações de nossos projetos; d) preocupar-se mais com as normas do que com as pessoas: a vida se torna uma obrigação, o seguimento fiel do protocolo, da lei, sem considerar que a caridade é o fundamento maior; e) desejar resultados imediatos, sem se preparar para a crítica, para a cruz e para o fracasso.
A Igreja torna-se sem sabor quando cai no pragmatismo. O Papa ainda fala de uma “psicologia do túmulo”: “Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como ‘o mais precioso elixir do demônio’” (Evangelii Gaudium 83). Não podemos perder a alegria da boa nova. 
A vida da Igreja e a vida pessoal tornam-se insossas pela tristeza e pelo pessimismo. O sabor será devolvido quando soubermos encarar a vida com realismo: não viver o pessimismo do fracasso diante das dificuldades, nem criar falsas expectativas diante das alegrias. É preciso agradecer a Deus tudo: o bom e o ruim. Não culpar Deus pela cruz e nem buscar sempre soluções mágicas diante das adversidades. A vida terá o seu sabor quando vivermos o presente como o momento mais importante, colocando nossas energias na situação do hoje, diante das situações que se apresentam agora, vivendo cada minuto com intensidade. Não é fácil, pois sempre será mais cômodo lamentar o passado e esperar demasiadamente do futuro.
Jesus também nos pede para que sejamos luz. Para o profeta Isaías, ser luz é testemunhar a caridade: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o e não desprezes a tua carne. Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 58,7-8.10). Nossas atitudes de misericórdia e de ternura, os gestos concretos de amor que independem do credo, a preferência pelos pobres e sofredores, o desapego de si e dos bens, os testemunhos em prol de quem precisa de nossa ajuda, tudo isso são atitudes que dão sabor ao mundo, que fazem acender a luz onde existem trevas. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Homilia da Apresentação do Senhor


Esta festa nos convida a vivermos três atitudes: encontrar o Senhor, sofrer com o Senhor e acolher a luz.
Encontrar o Senhor. O encontro de Jesus com Simeão e Ana no Templo de Jerusalém significa o encontro do seu Senhor com a Igreja e com a humanidade. Diz-nos o profeta Malaquias: “Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais”. Hoje temos muitos lugares de encontro com o Senhor, mas não podemos deixar de encontrá-lo nos espaços do cotidiano e na pessoa do irmão. Valorizamos o encontro privilegiado na Igreja – sacramento de salvação. A comunidade reunida, os sacramentos são mediações para o Senhor manifeste a sua presença. Triste seria não encontrá-lo na Igreja-comunidade que se reúne no templo. Ora se dá muita importância aos pecados da Igreja e da comunidade, à liturgia mal preparada, ao grupo desafinado, à falta de acolhida. São defeitos, mas o encontro com o Senhor está acima de tudo isso, pois se trata de uma graça. Hoje devemos abrir os braços e acolher o Senhor em nossa vida, em nosso coração, seguindo o gesto de Simeão e Ana.

Sofrer com o Senhor. Acolher o Senhor implica em entrar na dinâmica da cruz. A Apresentação do Senhor é já o começo do mistério da dor redentora de Jesus, que atingirá o seu ponto culminante com sua morte. Por isso, Simeão diz que ele será “causa de contradição”; para Maria, sobrou a profecia de uma “espada que transpassa a alma”. Hoje se propaga uma experiência religiosa como remédio contra o sofrimento, como negação da dor e dos limites da vida. Seguindo este caminho, logo vem a crise quando se participa de uma comunidade religiosa, quando práticas religiosas são realizadas e, nem por isso, os problemas da vida somem num “passe de mágica”. O papa Francisco nos exorta: “O Senhor que viveu humildemente nos ensina que nem tudo é mágica em nossa vida e que o triunfalismo não é cristão. A justa atitude do cristão é perseverar no caminho do Senhor, até o fim, todos os dias. Eu não digo recomeçar de novo todos os dias: não, perseguir o caminho, um caminho com dificuldades, mas com tantas alegrias. O caminho do Senhor”.

Acolher a luz. Diz-nos Simeão sobre o menino: “luz para iluminar as nações”. A luz de Cristo inunda tudo. Mas certamente, na nossa vida, muitas são as escuridões que necessitam de um brilho dissipador: o medo, a incerteza, a depressão, o ressentimento, o desamor, o desalento... Todas estas trevas são dissipadas, quando se acolhe o Cristo luz nos braços, com fé e esperança. Também nós que hoje acendemos nossas velas, devemos sair iluminando a luz do Cristo. Esta luz deve ser o testemunho de nossa fé e alegria de discípulos. O mundo precisa deste brilho. Oferecer este brilho de cores é um grande presente a este mundo imerso nas trevas.

Pe Roberto Nentwig

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

GUINÉ BISSAU - CNBB DÁ CONTINUIDADE A PROJETO DE FORMAÇÂO


Nossa Comissão de Animação Bíblico-Catequética tem colaborado com essa missão porque tem tudo a ver com a catequese sempre mais evangelizadora (missionária) que estamos propondo. Vejamos o relato de Pe. Guido que nos representou neste mês de janeiro:
Os bispos dos países de língua portuguesa, há diversos anos, tem encontros periódicos para troca de idéias e experiências pastorais. Num destes encontros foi levantada a pergunta sobre o que se poderia fazer de concreto pelas dioceses de Bissau e Bafatá na Guiné Bissau. Estas haviam criado um seminário inter-diocesano para cursos de filosofia e teologia em vista da formação de clero autóctone. Na oportunidade A CNBB se comprometeu com um programa de ajuda com professores na área de filosofia e teologia.
No decorrer desse s últimos anos já atuaram neste projeto em torno de dez professores(as) do Brasil. No mês de janeiro/2013, quem veio pelo projeto para lecionar na área de Bíblia foi Padre Décio Walker, colega de diocese mas atualmente a serviço da CNBB como assessor da Comissão de Animação Bíblico-Catequética.
Aqui na Guiné, além das aulas, a gente atua também nas mais diversas paróquias a serviço da formação principalmente da pastoral do dízimo e liturgia, nos finais de semana. É admirável a atenção dos participantes, assim também como nas salas de aula. Sente-se grande diferença entre a atuação pastoral nas paróquias daqui em relação às atividades pastorais no Brasil. Aqui o povo não tem pressa para nada, já se reúnem para as celebrações muito antes e permanecem depois para conversas e estar juntos. As celebrações são muito animadas e quanto mais longas melhor.
Fazer parte de uma missão como esta é uma experiência expressiva e definitiva em ordem a toda uma visão de Igreja e respectivas atividades pastorais que para mim permanecem pela frente na diocese de Santo Ângelo/RS na qual me cabe exercer o ministério presbiteral.
Sem mais!
Pe. Guido Boufleur
Loading...

Cadastre seu email e receba nossas novidades:

Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética

MAPA DE VISITAS